
A cena se repete nos parques de São Paulo todos os fins de semana. Corredores amadores que aumentaram o ritmo nos últimos meses começam a sentir uma dor fina na parte de dentro do joelho, logo abaixo da articulação.
No começo ela aparece só depois do treino. Com o tempo, passa a incomodar ao subir escadas, ao levantar da cadeira e até ao cruzar as pernas. Boa parte das pessoas espera que o desconforto suma sozinho. Em muitos casos, ele volta mais forte.
O aumento da prática esportiva ajuda a explicar por que esse tipo de queixa cresceu na capital. São Paulo é o estado com o maior número de corridas de rua do país. Foram 734 provas oficiais em 2024, alta de 33% sobre o ano anterior, segundo levantamento da Associação Brasileira de Organizadores de Corridas de Rua e Esportes Outdoor.
Só na cidade, a Prefeitura registrou 182 corridas apoiadas no mesmo ano, 15% a mais que em 2023. Mais gente correndo significa mais joelhos expostos a impacto repetido, e a parte interna da articulação está entre as regiões que mais reclamam.
Dor na face interna do joelho, chamada de dor medial, não é uma doença única. É um sintoma que pode vir de várias estruturas diferentes. Saber distinguir entre elas é o que separa um tratamento simples de um problema que se arrasta por meses.
A anatomia que explica por que dói por dentro
O lado interno do joelho concentra estruturas que trabalham sob tensão a cada passo. Ali ficam o menisco medial, o ligamento colateral medial, parte da cartilagem que reveste o fêmur e a tíbia, além dos tendões que descem da coxa e se prendem ao osso da perna.
Quando alguém apoia o peso do corpo e dobra o joelho, essa região absorve carga. Em uma caminhada comum, a força que passa pela articulação chega a várias vezes o peso corporal.
Na corrida e ao descer escadas, ela aumenta ainda mais. Por isso, qualquer estrutura desse lado que esteja inflamada, desgastada ou sobrecarregada tende a doer justamente nos movimentos do dia a dia, e não em momentos de repouso.
Artrose no compartimento medial, a causa mais comum depois dos 50
Entre as pessoas com mais idade, a principal origem da dor medial é o desgaste da cartilagem. A artrose de joelho atinge cerca de 15 milhões de brasileiros, o equivalente a 7% da população, de acordo com dados do Ministério da Saúde. O joelho é uma das articulações mais afetadas porque sustenta grande parte do peso do corpo.
O compartimento interno costuma ser o primeiro a sofrer. Conforme a cartilagem afina, o osso passa a receber mais carga, o que gera dor, rigidez pela manhã e a sensação de que o joelho range ou falha ao se movimentar. A Organização Mundial da Saúde estima que perto de 80% das pessoas com mais de 65 anos apresentam algum grau da doença.
A artrose também pesa no trabalho. A Sociedade Brasileira de Reumatologia aponta que a doença responde por 7,5% de todos os afastamentos registrados na previdência e está entre as principais causas de auxílio-doença no país. Para quem passa o expediente em pé ou agachado, o impacto vai muito além do desconforto pontual.
Bursite anserina, a inflamação que muita gente confunde
Nem toda dor medial vem do desgaste. Para a equipe médica do COE, clínica especializada em ortopedia em Goiânia, uma causa frequente, e pouco reconhecida pelo paciente, é a inflamação da bursa que fica na parte interna do joelho, logo abaixo da linha da articulação. Essa bursa funciona como um amortecedor entre o osso e os tendões que vêm da coxa. Quando há sobrecarga, atrito ou encurtamento muscular, ela inflama e gera dor.
A bursite anserina aparece muito em corredores, jogadores de futebol e em quem aumentou o volume de treino sem preparo. A dor costuma piorar ao subir e descer escadas e ao levantar da cadeira, o que leva o paciente a confundir o quadro com lesão de menisco.
Veja um material clínico que detalha essa inflamação e os sinais que a diferenciam de outras causas de dor interna, com orientação sobre quando o repouso resolve e quando é preciso investigar a fundo. Confira aqui.
A diferença importa porque o tratamento muda conforme a causa. A bursite costuma responder bem a repouso relativo, gelo, ajuste de carga e fisioterapia voltada para alongar e fortalecer os músculos da coxa e do quadril. Já uma lesão estrutural pede avaliação mais detalhada e, às vezes, exame de imagem.
Menisco e ligamento, e o erro de esperar passar
O menisco medial é outra fonte comum de dor interna. Ele funciona como um coxim entre os ossos e pode lesionar tanto por trauma, em uma torção durante o esporte, quanto por desgaste, no envelhecimento. Quando há ruptura, o paciente sente dor na linha interna, às vezes acompanhada de estalos, travamento ou a sensação de que o joelho prende no meio do movimento.
O ligamento colateral medial entra na conta nos casos de trauma. Uma pancada na parte de fora do joelho, comum no futebol, força o lado interno e pode estirar ou romper o ligamento. A dor é imediata e localizada, e em lesões maiores surge sensação de instabilidade, como se a articulação fosse ceder.
O problema mais frequente nesses dois casos não é a lesão em si, e sim a demora para investigar. Lesões de menisco ignoradas por meses tendem a evoluir, e o atrito repetido pode acelerar o desgaste da cartilagem ao redor.
O que começou como um incômodo tratável com fisioterapia chega ao consultório, mais tarde, como um caso que já exige conduta mais agressiva.
Peso, pisada e os fatores que ninguém associa ao joelho
Algumas causas de dor medial estão longe do próprio joelho. O excesso de peso é uma delas. Cada quilo a mais aumenta a carga sobre a articulação em uma proporção bem maior do que a balança mostra, porque a força se multiplica durante o movimento. Pessoas acima do peso correm risco maior tanto de artrose quanto de bursite.
O alinhamento das pernas também conta. Joelhos que se voltam para dentro, o chamado joelho valgo, jogam mais carga sobre o lado interno. O mesmo vale para alterações na pisada, que mudam a forma como a força sobe da planta do pé até a articulação.
Músculos posteriores da coxa encurtados, comuns em quem passa o dia sentado, completam o quadro ao puxar a região onde os tendões se prendem por dentro do joelho.
Esse último ponto interessa de perto ao trabalhador urbano. Quem alterna longas horas sentado no escritório com treinos intensos no fim de semana reúne dois fatores de risco ao mesmo tempo, musculatura encurtada e sobrecarga súbita.
É um perfil comum nas grandes cidades, e ajuda a explicar por que tanta gente jovem e ativa chega ao ortopedista com dor na parte interna do joelho.
Quando procurar avaliação médica
A maioria das dores mediais leves melhora com alguns dias de repouso relativo, gelo e redução da atividade que provocou o incômodo. O sinal de alerta é a persistência. Dor que não cede após uma a duas semanas merece avaliação de um ortopedista, de preferência com experiência em joelho.
Alguns sinais pedem pressa. Dor forte que impede apoiar o peso, inchaço importante, calor local intenso, febre ou vermelhidão marcada podem indicar quadros que precisam de cuidado rápido, como uma infecção. Trauma direto seguido de instabilidade também exige investigação sem demora.
A lógica vale tanto para o corredor amador quanto para o trabalhador que sente o joelho ao fim do expediente. Identificar a origem da dor medial cedo costuma transformar um tratamento de semanas em algo simples. Esperar para ver no que dá, ao contrário, é o caminho que leva boa parte dos pacientes da fisioterapia à mesa de cirurgia.